segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Do alto

Pro pé deslizar, eu avanço. Sou dedo mindinho. Na quebrada do repente, na levada do tempo, e do rebuliço interno. Deixa a testa franzir, e a energia de um corpo vivaz reverberar no vento. Deixa o chão estremecer. Quero voar na transferência do peso, sentindo-me estratosférico na imensidão do giro. Na batida frenética, no compasso desenhado, no adágio adiante. Tão (s)alto que sou. Vai que o ar faz-me viro, vou que aqui é suspiro, braço dado com o vento. Sou assim, passaredo, e meu fim, recomeço. Gotejei minha alma??? Pode ser, passanoite!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Escuro

Eu que não aceitasse a condição de ser/estar sob aquele terreno baldio. Um breu envolto de nada. De matar, aquele vazio. Uma brancura sufocante que me envolvia e me desnudava a cada ar que eu expirava. O teto que eu sequer enxergava não permitia que meu coração falasse. Era o primeiro labirinto sem muralhas que eu já tinha visto em toda minha vida. Um eu tão disforme que foi difícil contemplar. O oco de alguém que jamais se vira sob um ângulo nada modesto. Sim, o naufrágio.

Por que afundar é um acaso
debilmente em transe
sem olho nem boca
e assim, meio surdo.

Me dá teu escuro
tocando em mim
velando-me a morte
se eu sou teu sono.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Espanca

Um pé que se lança ao céu. A purgação de um ensimesmado estar. Sim, uma explosão que invade e, por fim, extingue qualquer possibilidade de regresso. Nada de voltar. Os dedos já não mais olham para trás, já que a poeira os tornou escravos de um calcâneo desajeitado e manco. Um derrotado, ele.

Que fosse acético, inclusive. Bastava um endireitar de pontas em en dehors. Era suficiente que sangrasse e por aí deixasse o firmamento de um sangue que outrora talhou. E o resto, meu bem, era cheiro. Desagradavelmente assim: chulé. Daqueles que chegam e ficam. Sufocam e matam.

Ah, como é bom metaforizar os podres! E eu volto esguio. M' enguio. No mais escuro de meus ascos. Dá licença que eu quero o despojo. Vá se fuder, a lógica! Porque eu quero é um jeito vadio, um descompromisso picante. Da lama ao bom grado, do previzível ao acaso, do etéreo ao devasso. Vários todavias, inclusive. A poesia que invade e mancha. A lava que escorre e borbulha. Vulcões tão voláteis e anímicos. Meu lixo e meu luxo "imprestos".

terça-feira, 14 de julho de 2009

Perdição

No ponto de encontro dos nossos olhos, o mundo girou em pianissíssimo. Teu brilho solava. Valseei-te na lua prateada, na prenda do verso, no abrigo do asfalto. Transitei pelos contornos da nossa pausa. Te compus em mim ao longo de um instante eterno.

A infinitude foi meu pano de fundo, e a sutileza de um sorriso difuso transladava meu desterro sereno. Me implodi em versos versáteis e te arranjei em sustenidos quaisquer. É o nó da metáfora que se lança ao léu e desmascara os acasos de desertos estridentes.

Quero-te o sol. E as manhãs pra salpicar-te ao relento. Porque minhas tardes são vazias feito céu das noites sem estrela. Meu papel é te evocar no acalanto caótico. Regozijar-me com a força que tens em mim.

Por isso te pinto no escarcéu do traço. Enlaço-te enquanto me envolves por entrelinhas. A coragem não é mais ambígua. E me pulso em espalhar constante. É teu mar de estrelas reverberando em meu céu de ondas. Maremoto de areia. Minha paixão se explodindo em pós.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Nosso Azul

Ah, teus olhos... A imensidão mais bonita em que me perco e me desencontro. Um encontro tão lindo de duas freqüências que se permitem fundir o tom e o cheiro. De alcances e acasos. De almas e mel. O ponto exato onde o universo se torna detalhe e qualquer piscar de olhos teus é um motivo azul pra que eu me esqueça do resto. É marejar de mim e oceano nosso. Ponto sagrado de se abandonar e, por fim, ir. Respirar o gozo e se espalhar em águas aconchegantes. Meu mais belo afogamento. Teu mais suave sereiar. E se é pra se embrenhar em redes e moinhos, vagueio sob a lua de prata. Pois nas noites de calma e desejos suaves, devaneios meus te perseguem feito correntes do cais. A correnteza do meu querer. O pulso do teu foco. Meu pôr de sol mais escaldante. Minha sensação predileta. Nosso encontro. Ver as coisas perderem o foco e tua grandeza diante da minha vontade. Tua beleza fundida em meus suspiros. Todo azul do mar nos teus olhos. Minha sede, meu encanto. Este amor deslizando em mim.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

...

Engraçado que enquanto te sonho meu sono se torna mar. Em cada imagem que me invades, um novo andor. Sinto-me alado e me perco na pausa de nosso encontro, na interseção de olhares. Percebo-te na levada de um embalo sereno, no aconchego da toada do mar. O momento certo de me afogar sem perder o ar e de me engasgar com teu sorriso. O encontro em que se alcança a perdição por meio de um achado até outrora não visto. O bem querer do teu toque afoito, da pele imersa em doces e justas causas, enquanto almejo-te as conseqüências e me embaraço na tua órbita. O impulso perfeito pra mergulhar no turbilhão do caos e fazer do infinito mero detalhe, já que é diante dos teus olhos que tanto digo sem nada falar.

terça-feira, 31 de março de 2009

Janela

Teus olhos são feito portais de madeira cristalina. Com toada de maresia calma e uma leveza de pedaço de céu. De uma transparência tranqüila onde me encontro numa nudez que não me envergonha. Porque se te olho assim como outrora fiz deixo de lado as palavras para não te perder de vista. Assim, sem piscar. Te dizendo com os olhos tudo que me é latente, tudo que me vem à tona enquanto perco o sono e o travesseiro se torna mar. No meu silêncio soando em belting. Na minha melodia que flui em adágios oníricos, em que no quase dormir me debruço ante teus olhos pra me embrenhar em tuas nuvens. Teu encanto já se tornou meu vício. E eu, sem sequer me dar conta, me abandono nesse teu brilho sereno, porque adoro seu jeito de sorrir com os olhos, e quando nossos sorrisos assim, repentinos, se encontram. So(u)-rio. Reverbera em mim todo o frescor de uma semente que se aconchegou e se põe a germinar no lugar que já é teu. Daí não tem jeito. Você se mostra em versos:

Que é o medo
Se tua alma é luz
Se teu brilho é calma
Se meu olhar é rio?

Que é o acaso
Se te alcanço o foco
Se teu olho é mar
Se me acertou em cheio?

Um tudo que cresce.
O todo flutua.
Um toldo me cerca
De alcance e paz.

Te entrego a vírgula
Te mostro dois pontos
O meu exclamando
E o teu reticente.